O Penta Que Se Quer Omitir [Por: Minsedes Shekaklaass]

O Penta Que Se Quer Omitir [Por: Minsedes Shekaklaass]

- EmDestaque, Diversos, Futebol, Girabola
0

O cartoon em anexo da autoria de Lito Silva é de 1990, foi publicado numa das páginas de desporto do Jornal de Angola de um domingo, dia em que foi concluída a primeira jornada do Girabola. Esse campeonato de 1990 ficou marcado por muitos acontecimentos históricos, qualquer um deles relevante, como a maior goleada da história do campeonato, a primeira falta de comparência da história do Petro de Luanda no campeonato, a estreia do técnico Dusan Kondic no 1º de Agosto e… um inesperado penta.

A chegada do desconhecido Dusan Kondic como que tornou real o cartoon de Lito Silva, pois, o 1º de Agosto esteve intratável no campeonato durante largas jornadas, o suor dos atletas regava os campos, como enalteceu certa vez Dusan Kondic. O 1º de Agosto parecia ter a faca e o queijo na mão para acabar com o jejum de títulos que durava desde 1981.

Com um plantel em que sobressaíam o estreante central Neto e os reforços Bolefo, Lucau e Mateus Fuidimau, além dos conhecidos Vieira Dias e Capeló, guarda-redes mais estiloso que vi no mundo, o 1º de Agosto começou desacreditado o Girabola, mas com o decorrer das jornadas começou a somar e a seguir, a passada larga parecia imparável ainda mais porque o Petro de Luanda andava mergulhado numa crise de identidade, sem prévio aviso Carlos Queirós foi rendido por António Clemente, porém, poucas jornadas depois António Clemente não apareceu para dar o treino, não foi achado em lado nenhum até que um excelente trabalho de reportagem do programa Desportivo da RNA desvendou o mistério, António Clemente fugiu para o Brasil alegando que estava a receber ameaças de morte.

Assim Carlos Queirós voltou a pegar no Petro, mesmo sem ninguém lhe pedir, ele revelou esse facto meses atrás na Rádio 5. A chama do Petr[óleo] aos poucos começou a ser notada no Girabola mas sem tirar a tranquilidade do irrepreensível líder D’agosto, até que em Setembro, houve alta tensão nos Coqueiros no último clássico relatado por Mateus Gonçalves e Manuel Rabelais.

O estádio encheu como nunca antes para o jogo do título, ainda me lembro ter escutado Mateus Gonçalves dizer no final que o resultado de 3-1 já fazia parte da história! E como ele estava certo! Mona bisou e Luizinho, esse mesmo o comentarista Luís Cazengue, assinaram o ponto pelo Petro, enquanto Bolefo, que actuou com a camisola 2, chorou ao fazer o 1-1, minutos depois de falhar um pénalti defendido por Orlando. No final do jogo o repórter da TPA Dedaldino da Conceição tentou em vão entrevistar o capitão Vieira Dias que tinha uma garrafa de água nas mãos. “Estou muito nervoso”, gritou VD visivelmente alterado e vergado pelo peso da derrota.

A bem da verdade, ele não era o único a se enervar com a primeira derrota no campeonato porque nas jornadas seguintes o 1º de Agosto começou a perder de maneira consecutiva e viu a esperança renascer para Petro e 1º de Maio. O adeus ao título num ápice se tornou uma questão de tempo, mas como a esperança às vezes morre no fim, os adeptos do 1º de Agosto perderam a cabeça contra o Inter de Luanda, alguns queriam invadir o relvado para tirar o feitiço da baliza do Inter.

Os ânimos estavam tão exaltados naquele sábado nos Coqueiros que um apanha-bolas ganhou coragem e tirou o feitiço da baliza, provocando uma euforia nas bancadas. Minutos depois o 1 de Agosto marcou quase no fim, mas mesmo assim houve choro e ranger de dentes porque o Inter já vencia por 2-0, por conseguinte, o golo de consolação só aumentou a frustração dos atletas provocando um sentimento de vingança contra o Inter.

Em 1992, o Inter precisava de uma vitória na última jornada para se salvar da despromoção, há relatos fidedignos que às ordens superiores orientaram o 1º de Agosto para perder, mas os atletas do 1º de Agosto se vingaram por 3-2, por causa da desfeita de 1990. Consta que um dirigente do D’agosto ficou assustado quando a equipa fez quase no fim o 3-2, mas os atletas aguentaram o barulho; se der, em 2021 vou recuperar essa história.

O Gira de 90 aqueceu no fim e deu total razão ao cartoon de Lito Silva, o impensável aconteceu, o Petro de Luanda fez uma espectacular recuperação para se tornar no primeiro e até agora único PENTA da história do Girabola. Era meu propósito recuperar há meses essa página incontornável do nosso futebol, porém, pouco divulgada, talvez porque a omissão às vezes fala mais alto do que a história. Um penta são 5 conquistas seguidas, o Petro venceu em 86, 87, 88, 89 e 90, uma breve olhada para outros campeonatos em que se fala português nos permite constatar que mesmo em Portugal e Brasil nem dá para usar os dedos de uma mão para contar as equipas que já foram penta. Mesmo quem quiser alargar a pesquisa nos países que não falam português, vai descobrir que o penta não é para quem quer, é para quem merece!

Por: Minsedes Shekaklaass

Comentários do Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.